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As memórias tiraram o dia para me assombrar.
Hoje queria contrair aquela doença chamada amnésia.
Esquecer a palavra paixão.
Não me lembrar que nutri qualquer tipo de sentimento por seres do sexo masculino.
Esforço-me diariamente para me completar com o que tenho na vida.
Ocupo os meus dias a fazer as coisas que gosto.
Preencho o meu tempo com pessoas de quem gosto e, essencialmente, que gostam de mim.
A família e os amigos… completam-me. Quando estou com eles não me sinto sozinha.
Mas falta aqui qualquer coisa. Há um vazio que aumenta a cada dia que passa.
Pergunto-me como é que o “nada” consegue ter tanto peso. Não era suposto remeter-se ao que o próprio nada implica?
E nestes momentos a memória é traiçoeira pois obriga-nos a pensar no que é mais recente. Parece que o nosso cérebro tem uma certa dificuldade em vasculhar lá no fundo do baú. A tendência é sempre para aquele passado quase presente. E dói lembrar, pois a ferida ainda não cicatrizou e por mais que saibas que ela não vai infeccionar, ela está lá, ainda a sentes a arder.
Seria bem mais saudável lembrar algo do antigamente. Uma história que com o passar dos anos já consegues recordar como tendo sido lindíssima e da qual tens uma justificação para ter terminado.
Mas não. O par de neurónios que possuo, hoje implicou em focar a sua atenção na última aventura que vivi e que até hoje não consigo decifrar se foi real ou se não passou de uma ilusão. Tento fazer uma comparação com paixões anteriores e de certa forma encontro um padrão. Não nas pessoas em si, mas nas histórias. Todas elas implicaram um desafio. Será que é isso que me move, que me faz sentir borboletas na barriga? Será que se me tivessem provado a realidade do momento eu teria perdido o interesse?
Recordo-me que desta última vez eu estava feliz por sentir que finalmente tinha encontrado alguém com quem fazia uma troca de valores justa. O comércio de sentimentos que se fazia sentir era equilibrado para ambas as partes. Se iria ou não perder o interesse comercial mais tarde, não sei responder. As pesquisas de mercado são feitas perante os factos que se apresentam no momento. Podem-se fazer planos de negócios, mas é necessário saber quais as prioridades dos clientes e o que é que leva à sua satisfação. Talvez se ainda estivesse a negociar contigo, colocava em cima da mesa os meus desejos e vontades e pedia-te para me forneceres os produtos/serviços. Bastava haver comunicação.
Posso entender o porquê de ter terminado. Só não entendo o porquê de teres dado a entender que querias reatar, alimentando diariamente essa ideia, para no final desapareceres mais uma vez sem uma única explicação.
Fizeste tantas promessas que não cumpriste, disseste tantas palavras que nunca foram acompanhadas por actos, que conseguiste afastar-me a mim também. A tua falta de interesse fez com que eu me desinteressasse igualmente. O teu medo consequentemente assustou-me.
Olho para ti e não sei o que sinto. Se calhar não sinto nada. Reflicto. Relembro. Tu tornaste-te numa memória, mesmo quando estás no meu presente. Talvez por isso é que não me és indiferente.
Pergunto-me se o que quero é ter-te de volta. Não sei responder. A balança desequilibra. As incertezas são tantas. Será que as tuas palavras eram verdadeiras? Será que o que vivi contigo foi extraordinariamente intenso para os dois ou foi só para mim?
A frustração é enorme. Primeiro por não ter respostas às minhas dúvidas. E segundo, porque o encaixe que eu senti contigo nunca antes o tinha sentido. Custa-me ignorar os sinais que o meu corpo me dava quando estava contigo, pois demonstravam-me que havia algo ali que era único. Eu não preciso de beijar dezenas de homens para ter a certeza que beijos assim não se encontram ao virar da esquina. Eu só não afirmo que flutuei no último beijo porque a lei da gravidade me desmente, senão seria esse o meu discurso. E quantas pessoas irás tu encontrar na vida com as quais te identifiques tão bem? Eu já conheci meio mundo e decididamente nunca tinha conhecido ninguém que se assemelhasse tanto comigo como tu. Agora questiono-te: éramos assim tão parecidos, ou tu também eras daqueles que me dizia o que eu queria ouvir e não aquilo que querias dizer? Ai… se eu soubesse que foi tudo uma ilusão… morria aqui o que resta da vontade de saber, de questionar, de querer, de… te ter.