
As pessoas são interessantes quando estás constantemente a descobrir algo novo nelas e isso te agrada. Apaixonas-te facilmente por gente interessante, assim como te desapaixonas quando elas se tornam desinteressantes.
O tempo fez-me perceber que é impossível gostares de alguém que vive num mundo aparte do teu. É na convivência que se criam os laços, o sentimento, a vontade de continuar, que se mantém a chama da paixão.
Tu… estás cada vez mais distante do meu mundo. Reapareces de vez em quando, fazes-me tremer da cabeça aos pés, fico em estado gelatina, de morango, durante alguns minutos, admito. No entanto, quando consigo espaço para criar uma bolha que nos envolva vejo as tuas mãos procurarem incessantemente os bolsos para sacarem daquela agulha com o bico afiado de forma a rebentá-la. Os teus lábios cerram-se. O diálogo é cada vez mais curto e monótono. O assunto base é quase sempre o mesmo: nós e a impossibilidade de haver um “nós”! Canso-me de te ouvir, canso-me de me ouvir, canso-me de nos ouvir, canso-me, canso-me do esforço e do cansaço de estar cansada!
Olho-me ao espelho e quase que sinto dó de mim mesma. Não devia. Realmente, deveria ter dó de ti. Eu lutei. Quando soube que te senti lutei por manter o sentimento por ti. Tu disseste que sentiste e fugiste. Usaste aquele discurso básico de que “o problema sou eu, não és tu!”. Bullshits!
A esperança esvai-se. Cada vez menos acredito que existe uma continuação para o que vivemos. E não é por tu não quereres. Hoje, posso garantir que é por eu estar, a cada dia que passa, a fazer menos questão que isso aconteça. Tudo se perdoa, mas nada se esquece. Creio que não vou ser capaz de ignorar a merda que fizeste. Com intenção ou inconscientemente, brincaste com os meus sentimentos. Eu confiei em ti cegamente. Acreditei em todas as palavras que me disseste, fiquei atenta a todos os gestos que fizeste, aceitei todos os defeitos e inclusive transformei-os em simples pormenores, características únicas da tua personalidade. Pintei um quadro colorido com o lápis de carvão que me deste. E tu não foste capaz de ser verdadeiro comigo, não colocaste o teu egoísmo de lado, foste ao longo do tempo alimentando a minha fome com pequenos pedaços de maça verde, agridoce. Fazias questão de descascar a maçã, separar as cascas, cortar aquela peça de fruta, não outra, aquela, pois sabias que me iria fazer lembrar de ti, e colocavas num prato pequenos nacos formando desenhos. Se me tivesses simplesmente oferecido a maçã eu poderia dizer que teria interpretado de forma errada as tuas intenções, mas tu fizeste os desenhos, rascunhos simples que até uma criança saberia interpretar. Foste indecente.
Não, não esperes que te odeie. Simplesmente… quando acordares amanhã, eu já não estarei lá, naquele local onde sempre estive, à espera que aparecesses para cumprir todas as promessas que fizeste, para continuar aquela longa caminhada a dois, a par.
Terminei neste momento de fazer a minha mala e vou seguir viagem. Vou colocar o pé na estrada e percorrer caminhos sem mapa, porque não interessa onde estarei daqui a uns meses pois, por mais que o meu sentido de orientação seja péssimo, não precisarei de me lembrar do caminho de volta. Não quero de forma alguma regressar a este lugar. Se um dia mudares de ideias, podes sempre lançar-te em viagem, procurares as minhas pegadas...ou quem sabe nos cruzemos, num outro local, numa outra altura, de outra forma, e aí sim, começarmos uma nova jornada lado-a-lado com a certeza de que ambos queremos seguir o mesmo caminho.



