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Irrita-me profundamente perceber que a maioria das pessoas que me rodeia, quer sejam amigos ou simples conhecidos, não evolua sentimentalmente. Por vezes dá vontade de lhes gritar ao ouvido: creeeeeeeeeeeeeesce!
É ridículo ver gente adulta confundir paixão com amor. É triste assistir ao ultrajar do “Amo-te”.
Meus amigos, por alguma razão a nossa língua é complexa e possui várias palavras semelhantes mas cada uma delas com um significado próprio! Que tal começarem a pensar em português? Esqueçam a influência americana e a teoria dos Clã de que “devia ser como no cinema, a língua inglesa fica sempre bem e nunca atraiçoa ninguém”. Um “I love you” pode significar muita coisa como pode não significar nada do que estás à espera. Já o nosso português tem várias expressões, essas sim, que não atraiçoam nem quem as diz nem quem as ouve. Sintam meus queridos. Analisem. Quantifiquem. Qualifiquem. Vivam. Pensem. E aí sim, abram a boca e digam numa só palavra o que vos vai na alma. Porque a diferença de um “Gosto de ti” ou de um “Adoro-te” para um “Amo-te”, na minha humilde opinião, é indescritível!
O amor é um sentimento que nasce do conhecimento, da (con)vivência, requer tempo e dedicação. Não existe “amor à primeira vista”! Tu não amas quem não conheces. Podes nutri-lo por um(a) amigo(a) ou por alguém que imaginas que será o pai/a mãe dos teus filhos, a pessoa com quem pretendes envelhecer. Mas esse amor não nasce em dois dias, é construído.
Amar alguém é amar as suas qualidades, os seus defeitos, os seus pormenores, os seus tiques, os seus dias bons, os seus dias maus, a sua postura num dia de Inverno, a sua postura num dia de Outono, a sua postura num dia de Primavera, a sua postura num dia de Verão, o seu sorriso alegre, o seu sorriso tranquilo, o seu sorriso eufórico, o seu sorriso triste, o seu sorriso falso, o seu passado, o seu presente, o seu futuro.
E acredito que seja nas piores fases de uma vida que ele mais se revela, porque é quando tu sofres a par com outra pessoa, quando choras ao vê-la chorar, quando moves montanhas para lhe colocar um sorriso na cara, quando corres este mundo e o outro só para lhe dar um abraço, quando a sua ausência te consome o interior de saudade, quando não conseguires imaginar a sua morte, quando percebes que a sua existência é um dos alimentos para a tua sobrevivência, aí sim tens a certeza absoluta que a amas.
Amar outra pessoa é deixá-la fazer parte de ti, é permitires que seja uma influência em ti, é seres quem és porque ela existe, é deixá-la ser as partículas de oxigénio que respiras e teres orgulho na combustão de carbono que consequentemente expiras!
Já a paixão não passa de uma atracção, em grande parte física, que vem e na maioria das vezes não fica, não evolui, simplesmente extingue-se. É aquele sentimento de desejo que sentes quando conheces uma pessoa que te atrai, aquele encantamento quando ela diz ou faz algo que te desperta o interesse, aquela ansiedade de a conheceres melhor porque acabaste de perceber que ela tem algo em comum contigo, são as borboletas na barriga, é o adormecer a pensar nela, é acordar e ser o teu primeiro pensamento, é não largares o telemóvel o dia inteiro só para ter uma sms ou um telefonema dela, é viveres dias/semanas/meses ansiosa, é a adrenalina do desconhecido.
E só existem três finais para a paixão: ou se extingue, ou se estagna não tendo futuro ou evolui e sobrevive a par com o amor.
E é quando duas pessoas apaixonadas descobrem que se amam e juntam os dois sentimentos que a chama se mantém e acontecem finais felizes.
Por amor de Camões, deixem de ultrajar a nossa língua e a vocês mesmos com palavras que não acompanham os vossos actos.